Mais cenas da carrocracia soteropolitana. Ou, como já sugerido alhures, cenas cotidianas da massa apocalípitca: afinal, para que e para quem se destinam as calçadas de uma cidade? O que tudo isto deveria nos dizer acerca da qualidade de vida em nossas cidades?

Infelizmente, as imagens mostradas abaixo não refletem casos isolados na cidade de Salvador.

Em outras cidades, as vezes nos sentimos mais cidadãos. Teríamos coragem de rebocar o automóvel de um morador do nobre bairro da Graça?

Olá a tod@s,

Escrevi este texto há mais ou menos um mês, a intenção era tanto a de servir de desabafo e protesto, mas também a de provocar alguma reflexão acerca dos infortúnios que enfrentamos em nosso dia-a-dia.

Eu o havia enviado para o grupo de discussão “bicicletada_ssa”, mas quis também compartilhar ele aqui.

O tom era de revolta, mas vou mantê-lo do jeito que foi escrito. Depois procurarei comentá-lo. Bem, segue o texto

Isso aqui é mais um desabafo. É mais uma forma de externar a minha revolta contra boa parte desses imbecis, homicidas em potencial, a quem chamamos de motoristas de ônibus.

Desconfio que minha bronca com eles só irá deixar de existir quando eu “abstrair”, como dizem, ou seja, quando eu simplesmente deixar pra lá. Assim, quando eles passarem raspando por mim, quase tirando tinta, quando eles passarem buzinando e roncando forte o motor, quando eles deixarem claro que estão irritados com a minha presença, quando eles propositalmente me empurrarem para fora das pistas (ainda que isso signifique ter que me derrubar), eu irei “abstrair”…

Dois episódios recentes, envolvendo esse tipo de atitude estúpida e irresponsável, me fizeram pensar sobre como se forjam mentalidades motorcratas assim.

No primeiro, quando eu voltava para casa, por volta das 19:00, vindo do bairro de Ondina, sentido Vitória, pela Avenida atlântica, noto um motorista de um micro-ônibus executivo de uma das empresas que fazem o circuito Iguatemi-Praça da Sé, vindo em alta velocidade.

Ele já havia passado por mim, mas me chamou a atenção a maneira irresponsável com que o condutor dirigia. Ele chegou a invadir a contra-mão para ultrapassar os carros que estavam a sua frente e assim, imagino, chegar mais rápido ao seu destino.

Só que estamos em Salvador, cidade congestionada e toda aquela pressa dele não o levaria muito longe.

Passo por ele – que havia ficado parado na sinaleira do cristo. Ele passa por mim, novamente, rápído, mais uma vez invadindo a contramão para fazer suas ultrapassagens…

Encontro com ele na altura do hospital espanhol – parado, obviamente. Percebo que ele já me identifica e, estranhamente, tenho a sensação que o fato de eu o alcançar e ultrapassar, de algum modo, causa-lhe algum incômodo.

Na subida da ladeira da barra, bem naquela primeira curva, na altura do hotel, ele passa por mim a toda, buzinando, como quem diz “sai da frente” e quase me põe no chão.

Sangue no olho: subo a ladeira pedalando forte, querendo alcançar o maníaco e dizer alguns impropérios, dizer que ele não pode se julgar assim tão impune e, principalmente, mostrar pra ele que eu não aceito aquela estupidez.

Claro, com a cidade congestionada como está, alcanço o motorista na Vitória e bato boca com ele. Pergunto se ele conhece o CBT, ele diz que sim, pergunto então se ele tira fino dos ciclistas de propósito, já que ele deveria saber que não se pode conduzir o veículo dessa maneira, que se deve guardar distancia de 1,5 m do ciclista, que se deve reduzir a velocidade ao ultrapassá-lo etc.

A conversa não adianta nada, porque o maníaco adota uma postura irônica e zombeteira. Acabo mandando ele tomar no c. e fico tão nervoso que esqueço de anotar a placa e o número do ônibus.

Neste último sábado, a mesma coisa. Volto da Jam no Mam [onde trabalho como operador de áudio], por volta das 22:00, numa noite de Sábado, pela Av. Carlos Gomes.

Motorista de ônibus apressado, passa por mim a toda, buzinando e gritando de forma agressiva – acho que por eu estar pedalando com a minha bicicleta reclinada. Muitas pessoas reagem assim quando me veem pedalando com ela, gritam, dizem gracinhas, estranham e querem reprimir o diferente. É um saco. Mas quando é um motorista de ônibus tirando um fino, é a sua vida que está em risco.

Obviamente, mesmo com toda pressa do imbecil, alcanço-o no ponto que fica perto da Casa D’Irália. Novamente exercito a minha teimosia estúpida: pergunto se ele conhece o CBT etc. O imbecil responde, ironicamente, que sim e que por isso mesmo ele buzinou para me alertar, porque eu deveria estar pedalando no “acostamento”(!!).

Imbecil, eu disse, vá tomar no seu c. Nervoso mais uma vez, não faço nada certo e nem anoto as informações que me permitiriam fazer uma queixa do motorista infrator.

Vou tentar adotar uma postura mais pacífica, à lá Gandhi ou Jesus Cristo. Tentar dar a outra face ao seu agressor. Talvez assim eu não me estresse tanto. Mas fica a pergunta: como se forjam mentalidades assim? Como se reverte isso daí, sem fiscalização, sem educação, sem medidas coercitivas?

Sei que não devo personalizar: os dois imbecis não são maníacos. Eles agem de acordo com a lógica motorcrata – bastante piorada por conta de todo o stress a que estão submetidos.

Imagino que as empresas de ônibus cobrem pontualidade de seus motoristas. Além do que, a vida de quem vive em meio a este tráfego insano, congestionado, violento, torna-os competitivos e igualmente violentos. Sei de tudo isso. Mas não sei como se reverte esse quadro. As vezes penso que num mundo perfeito não haveriam motoristas…

Eduardo Luedy

Hoje, dia 24/12, estive pedalando e as ruas da cidade estavam tranquilas. Diferentemente do usual, certamente por causa da proximidade do feriado natalino num dia de sexta-feira, a cidade respirava uma morosidade gostosa. O dia ensolarado e bonito. Luz, muita luz, assim é a cidade de São Salvador no verão. Clima quente, mas bom para pedalar. Sim, porque a tranquilidade de que falo decorre da diminuição da circulação nas vias públicas dos veículos motorizados particulares. Não é novidade: poucos automóveis nas ruas = cidade mais tranquila, porque assim ela se torna melhor e mais segura para se caminhar, com menos carros nas ruas, produz-se menos ruído, menos poluição atmosférica também. Enfim, uma cidade com poucos automóveis parece ser uma cidade melhor, porque mais “humana”.

Bem, estava eu nos meus devaneios, quando, ao subir pedalando a Ladeira da Barra, deparo com uma fila de automóveis estacionados em cima da estreita calçada nas imediações do Yacth Club da Bahia. O Yacht é um clube privado de gente endinheirada que, ao que parece está c… e andando para quem não se locomove de carro e precisa usar as calçadas. Ops! Não, eles, essa gente endinheirada que pode comprar seus possantes e mastodônticos SUV’s, não costuma andar pelas ruas da cidade! Eles estão, sim, c… para quem precisa se locomover assim, mas certamente não estão andando… Ora, a insensibilidade e o descaso que manifestam pelos direitos dos pedestres só podem ser compreendidos porque eles não precisam caminhar pelas calçadas da cidade, porque eles não são pedestres.

Se não, como explicar essa estúpida ocupação das vias públicas que vemos logo abaixo?

Ladeira da Barra

Ladeira da Barra. O Yatch Club à direita e os carros estacionados em via pública, por cima da calçada...

Um pouco mais acima... Mais carros estacionados em cima da calçada.

Não, não é uma fila dupla de automóveis. Os parados à esquerda estão estacionados onde não deveriam estar: em cima da calçada.

Os motorizados são, no entanto, generosos: uma pequena e estreita faixa da calçada foi deixada para que os pedestres passem de ladinho.

Que linda imagem, não? Até parece um anúncio, com o automóvel imponente, emoldurado pela Baía de Todos os Santos. Bem, confesso que preferia que ele não estivesse enfeiando a paisagem. Mas preferia ainda mais que ele não estivesse impedindo a passagem de pedestres – que constituem a maior parcela da população que se desloca pela cidade.

Pois bem, assim são as cidades carrocratas. Assim é a sociedade do automóvel.

Os donos dos veículos automotores podem tudo.  E, como podem tudo, por que não estacioná-los nas vias públicas? E se não é possível estacionar sem atrapalhar o fluxo de outros veículos motorizados, por que não parar sobre as calçadas? Se os seus “iguais” – que podem comprar automóveis caros – não precisam das calçadas, quem se importa?

Reclamei do absurdo com o policial militar, mas ele disse que “isso não é mais com a gente”, e continuou falando no celular.

Ps. já fazia algum tempo que eu queria fazer algo parecido com o que já havia visto num de meus blogs prediletos, o Apocalipse Motorizado. Inspirei-me, mais particularmente, neste post daqui.

Matéria muito bacana da Revista Muito, de A Tarde:

[Não resisti e re-publiquei a foto que fizeram de mim :-) ]

N’A Tarde do dia 14/10, leio que quase metade dos acidentes no trânsito de Salvador são atropelamentos. E, pasmo, leio que um especialista afirma que em 80% dos casos a culpa é do pedestre.

Taí um recorte da matéria:

De acordo com dados da Superintendência de Trânsito e Transporte de Salvador (Transalvador), em 2010, 81 pessoas morreram vítimas de atropelamento em Salvador – 46,5% do total de 174 mortes por acidentes de trânsito na capital. Para o médico e perito em acidentes de trânsito Eduardo Sampaio, que estuda o tema há 13 anos, o pedestre é o principal culpado pelos acidentes. “Podemos dizer que 80% dos atropelos é culpa exclusiva do pedestre”, afirmou o especialista. A maioria das vezes, os acidentes ocorrem devido a condutas como atravessar fora da faixa e não utilizar as passarelas em vias de alta velocidade.

Para além dos dados preocupantes, o que me deixa realmente aborrecido é perceber como as palavras do especialista refletem a naturalização da carrocracia: os culpados pelos atropelamentos são os pedestres que insistem em atravessar fora das faixas, que ignoram as passarelas, que de modo estúpido põem suas vidas em risco e assim causam transtornos terríveis para os motoristas.

De acordo com a lógica motorcrata somos nós, os pedestres, que devemos ter cuidado com os carros. Daí que vejo em um dos meus blogs favoritos, “Apocalipse Motorizado“:

Na anti-cidade, quem deve olhar é o pedestre. Se você está a pé, “proteja-se das máquinas”, elas matam. Mas se você tem uma armadura de duas toneladas, em especial aquelas com vidros escuros, acelere, afinal a vida que atravessa na sua frente deve olhar, parar e deixar o seu veículo passar.

Felizmente, na mesma matéria de A Tarde, uma outra autoridade no assunto – como não sou assinante deste jornal, não guardei na memória o nome dela – tece outras considerações para esta situação triste (tão triste quanto a lógica motorcrata que rege o vaticínio do Eduardo Sampaio).

Para a especialista, para se reverter essa situação – em prol do bem estar da coletividade, bem entendido, e não apenas dos motoristas! – seria preciso reduzir a velocidade máxima das vias, melhorar as calçadas, cuidar, enfim, dos pedestres e não apenas de facilitar o fluxo dos motoristas e de seus veículos assassinos.

Pois é justamente aí que a gente que pedala pode fazer a diferença: ao reivindicar uma escala humana em nosso trânsito, ao exigir que sejamos respeitados, ao mostrar que as cidades têm que cuidar de suas calçadas e das pessoas que por ela circulam – e não apenas dos motoristas, aqueles que somam, na maioria das megalópoles, algo por volta de 30% da população. Ocupar as ruas e avenidas pode, sim, fazer com que tenhamos uma convivência mais pacífica no trânsito.

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