Eu sabia que este dia chegaria. Mais dia, menos dia, era uma mera questão de tempo, até me tornar também mais uma estatística.

Não que eu gostasse da idéia. Pelo contrário, ela me assustava, mesmo que mal disfarçasse gostar do fato de me considerar esperto e hábil o suficiente para ter evitado qualquer acidente nestes seis anos de ciclismo urbano, pedalando por entre automóveis ruidosos e motoristas de ônibus irresponsáveis. Também gostava, tolamente, de perceber como as pessoas ficavam admiradas com a minha coragem (ou com o que consideravam ser uma maluquice minha). “Faz seis anos que ando de bicicleta diariamente”, eu dizia orgulhoso, “e nunca caí”. “Sei que o trânsito é violento e que pedalar nesta cidade pode parecer loucura, mas eu nunca caí”. Era o que eu dizia para todos que me perguntavam como eu tinha coragem. Sim, não é para qualquer um, mas eu, impávido, enfrento o trânsito louco dessa cidade maluca. Um Che Guevara lutando contra a motorcracia opressora.

Isso até pouco tempo, porque eu, finalmente, me acidentei. Ou melhor, fui derrubado por um ônibus que passou por mim a toda. E, por sorte, não me arrebentei feio.

Ontem, por volta das 14:00, um motorista de ônibus, na av. ACM, quase me atropela.

Eu estava rodando ao longo do meio-fio, no sentido dos automóveis, à direita da pista de mão única, tentando manter aquela distância prudente de mais ou menos 1,5 do meio-fio (uma distância que nos assegura uma margem de manobra quando os veículos motorizados nos pressionam, tentando passar a qualquer custo em alta velocidade e de maneira irresponsável).

É o mais prudente a fazer. No entanto, quando um monstro de toneladas, enorme, vem à toda, roncando motor enfurecidamente, como que anunciando que vai passar por cima de quem lhe atrapalhar o caminho… é muito difícil permanecer àquela distância de metro e meio do meio fio, é lutar contra o próprio instinto de sobrevivência, porque a gente sabe que ele – o motorcrata potencialmente assassino – está certo de que a avenida pertence a ele e aos outros veículos motorizados; ele também sabe que nós somos frágeis e que, por isso, devemos temer sua potência e seu furor. Ele sabe do nosso medo, sabe de sua potência e age de acordo com a lógica da motorcracia: as ruas pertencem a eles e só a eles e se algo mais grave houvesse ocorrido, a culpa era toda minha – eu que, de maneira imprudente, decidi por minha conta arriscar a própria vida.

O motorista vinha acelerado e passou a toda por mim, tão rente que perdi o controle da bike. Para escapar de ser atropelado, entrei pela vala entre o meio-fio e a pista de tal modo que, apavorado com a possibilidade de cair ao lado da pista e ser atropelado, pulei da bike e me atirei na calçada. Ainda antes de cair, soltei um palavrão – revoltado que estava com aquela atitude criminosa. Terá o motorista me enxergado enquanto passava em alta velocidade? Terá visto o momento em que eu me esborrachava no chão? Terá sentido algum arrependimento por ter provocado o acidente? Ou, ainda pior, terá ele simplesmente ignorado a minha presença ali?

Uma vez no chão, olhei para a bike caída no asfalto, eu a uns poucos metros à frente. Enquanto isso os automóveis passavam rápido, indiferentes ao meu drama. Sim, era certo que ninguém interromperia o fluxo para prestar ajuda, a não ser que eu tivesse caído na própria pista e, assim talvez, obrigasse os motoristas a parar. No entanto, mesmo sabendo disso, a invisibilidade aumentava a sensação de desamparo.

Levantei, já nem pensava mais na indiferença dos motoristas, só em sair logo dali. Suspendi a bike, nada de mais havia acontecido com ela (e eu fiquei feliz por isso). Meus óculos na sarjeta com as lentes arranhadas. A mochila ainda presa no bagageiro estava um pouco rasgada do lado. Percebi as escoriações nas palmas das mãos, cotovelo e joelho direito, as feridas impregnadas de areia e lama. Nada de grave, contudo, havia ocorrido, nenhum membro fraturado. A única coisa que parecia partida e abalada era a minha confiança.

Subi na bike e retomei o meu rumo. Outros ônibus passaram por mim e eu não me senti mais tranqüilo com a minha destreza, nem seguro em minha cidade.

A sensação de fragilidade e impotência me deixaram com muita raiva da crueldade toda da situação: a violência indiferente do trânsito, a irresponsabilidade assassina do motorista do ônibus. Cheguei a recear que o trauma viesse a me deixar paralisado e sem coragem/vontade de encarar o trânsito hostil de minha cidade, de passar a pensar duas vezes se devo sair de bike.

Tenho de lutar agora contra isso. Não posso ceder ao medo. Não posso deixar que a hostilidade dos motoristas me impeça o direito de ir e vir. Mas desconfio que o prazer que eu tinha, por conta da sensação de liberdade e do gostar tanto de poder me deslocar sem depender de ninguém, além de mim mesmo, sinto que isso esteja agora profundamente prejudicado.

Talvez leve algum tempo até eu me acostumar com a idéia de que não posso mais me aventurar pelas pistas de rolamento impunemente. A motorcracia terá assim conseguido me retirar o direito de pedalar? Isso me aborrecia muito, para além das lentes aranhadas, para além das escoriações, para além da injustiça, pensar que corro risco de morte por simplesmente pedalar ainda me indigna muito.

Gostaria de passar das idéias para as ações. Mas a verdade é que me sinto, agora, impotente para propor algo. Penso nas notícias de acidentes fatais envolvendo ciclistas que já reproduzimos aqui mesmo neste blog e fico triste. Naquele momento, minha revolta não tinha ainda o mesmo peso que tem agora que senti na pele – literalmente – as consequências de nosso trânsito assassino.

Espero que num próximo post eu consiga articular planos a ações concretas.

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